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RECEITA DE SUCESSO: travesti enquadrada, com pitadas de pornografia e humor.

 

Se encontrar uma travesti na delegacia, você é alguém de sorte.

 

Primeiro filme todo o corpo da moça. Peça para ela fazer caras e bocas. Peça para fazer poses. Filme tudo! Se possível, ressalte uma parte íntima, como os glúteos ou os seios. Se conseguir, arrasou!

 

Agora vamos à entrevista. Identifique a travesti pelo nome de registro, depois ironize o nome que ela escolheu, não deixe passar. Exemplo: “O Jodinei Aparecido Palhares, de 33 anos, mas conhecido como Débora, nome de guerra né?”.

 

Não se esqueça: durante a entrevista, use os pronomes “ele” e “ela”. Faça uma bagunça com os termos, isso ajuda a ressaltar o caráter bizarro da criatura que está à sua frente. Neste sentido, você pode dize: “Aqui está detido a Vanessa. Essa moça, que prefere ser chamada de moça, homossexual”.

 

Se o outro lado da história estiver presente, ouça ambas as versões, isso sempre vale. Os limites da sua prática profissional, contudo, são elásticos. Dirija-se à “vítima” da travesti com perguntas sucintas, factuais, sem rodeios. A travesti você pode “bulinar”, o público te dá esse direito, e até vai rir. Zombe do ofício dela – geralmente são prostitutas –, pergunte quanto cobram pelo programa. Peça detalhamento dos atos sexuais e reforce todos os clichês.

 

Antes de ir ao ar, cabe ao apresentador do programa jornalístico/policial enfatizar a participação da travesti na confusão. É ela quem vai segurar a audiência. E, depois de apresentado o VT, faça upload no Youtube. Todo mundo vai ver, morrer de rir e compartilhar.

 

AVISO: O texto abaixo apresenta exemplos de transfobia para provocar reflexões sobre o tratamento das travestis na mídia.

Como (não) tratar Vanessa

Por Brunner Macedo

Acima, o vídeo da entrevista com Vanessa

A #MídiaTrans quer saber a sua opinião. Utilize este espaço para deixar a sua opinião:

Ilustração: Brunner Macedo

 

Ao fim do dia, gargalhadas no bar com os amigos. Ao fim da noite, travestis abusadas e mortas. Persiste a madrugada, a maioria se cala, poucas procuram o departamento policial. O tratamento quase nunca é decente. E a mídia ajuda a esfrangalhar suas imagens. Se, no fim, é tudo piada, direitos humanos, para quê? Não valem nem vinte reais.

 

*A travesti Vanessa se popularizou em 2007 após ser entrevistada em uma delegacia da cidade de Ji-Paraná em Rondônia (vídeo ao lado).

Para facilitar a compreensão de quem são e de como as pessoas trans* devem ser tratadas, elaboramos uma cartilha. Acesse e abra o guarda-chuva!

Alô, alô jornalistas de plantão. Plantão policial. Hora da ronda. Atenção aos BOs pelas quebradas, aos casos mais embaraçosos, aos personagens da madrugada. Peixe na rede: travesti.

 

Ajude-nos a humanizar o olhar sobre as pessoas trans*. Envie um desenho seu sobre a temática transexual para o email contato@midiatrans.com e publicaremos aqui, na #MídiaTrans.

 

 

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